Fomos conhecer melhor Francisco Silva, o fundador do grupo “Paleo Descomplicado”, e saber o que o levou a optar por este novo estilo de vida. Determinação, persistência, assertividade e vontade em partilhar marcam a personalidade do fundador deste grupo que tem cativado muitas pessoas. Numa conversa descomplicada ficámos a saber o que é a Paleo, os alicerces em que a mesma assenta e também algumas ideias pré-concebidas que condicionam o nosso dia-a-dia.

Carla Cerqueira – Como conheceste a paleo?

Francisco Silva – No início de 2014 tive conhecimento de uma dieta de emagrecimento que estava a ser publicitada como muito popular em Portugal: a “Dieta dos 31 Dias”. Nessa altura, apesar de bastante cético, resolvi ler o livro que explicava a dieta e tentar o que esta propunha (até porque estava com quilos a mais…). Efetivamente obtive bons resultados, com pouco esforço, e a partir daí comecei a interessar-me mais por este mundo da alimentação.

Conheci a Paleo através de outros grupos de facebook sobre a alimentação em que participava. Paralelamente, encontrava-me a ler um livro chamado “Cérebro de Farinha”, que já abordava as questões do glúten, estados inflamatórios e relação com doenças mentais e outras. O facto é que as coisas começaram a fazer muito sentido, à medida que lia sobre a filosofia Paleo e trocava impressões com amigos e outros participantes nos grupos de discussão.

CC – O que te levou a adotar a paleo como estilo de vida? E que diferenças notas?

FS – Como referi, de repente parece que muita coisa fez muito sentido. É como se nunca tivesse pensado a sério no que é a alimentação… ou no que ela deveria ser. Sofremos uma enorme lavagem cerebral ao longo da vida e incutiram-nos péssimos hábitos alimentares, derivados de má informação, de interesses de poderosas máquinas industriais e da busca pelo facilitismo que norteia a evolução das sociedades modernas.

Para além do peso, que continuou (tranquilamente) a descer, notei melhorias ao nível do cansaço físico e mental. Sofria de comuns dores de cabeça ao fim do dia de trabalho, algo que desapareceu por completo. Mas sempre fui uma pessoa sem grandes problemas de saúde, pelo que espero que os efeitos mais significativos ainda se venham a revelar… a longo prazo.

CC – A paleo que praticas é um pouco diferente. Como surgiu a paleo descomplicada?

FS – Bom, como costumamos dizer, não há uma só Paleo! Para mim há um termo que é muito atual e se deve aplicar a praticamente tudo na vida moderna: sustentabilidade! Como é óbvio, não vivemos no período Paleolítico, portanto, defender que temos que passar a viver copiando o passado seria algo que até poderia ter a sua piada durante um certo tempo, mas não seria sustentável a longo prazo. Especialmente se pensas numa reeducação alimentar… isso envolve mudanças de hábitos em pessoas maioritariamente já stressadas por falta de tempo e múltiplos afazeres familiares e profissionais. É preciso criar condições para que essa mudança de hábitos seja feita de forma, lá está, sustentada, ou seja, que fique de tal forma enraizada que se mantenha sem esforço por muitos anos (de preferência até final da vida)!

A Paleo Descomplicada surge por isso mesmo: comecei a ver algum contrassenso em alguns seguidores da Paleo. Por um lado defendendo que a Paleo é um estilo de vida, uma filosofia… por outro sites, blogues e grupos cheios de regras e listas com “podes” e “não podes” ou “é paleo” e “não é paleo”, cheios de dedos apontados a quem sai fora da linha… Vi que, felizmente nem todos pensavam assim (tomei contacto com o blog do Dr. Souto e com o site do Mark Sisson) e que havia abertura no mundo científico para se poder considerar uma versão menos proibitiva e mais orientadora que resolvi adotar para mim. Como nos grupos de discussão onde estava não me sentia já totalmente confortável para defender este ponto de vista e queria trocar experiências, resolvi então criar o meu próprio grupo “Descomplicado”… e o grupo “explodiu”. Estamos à beira de fazer 1 ano de existência e quase a chegar aos 15 mil membros! 

CC – De forma resumida, e para quem não conhece, na paleo descomplicado em que consiste a alimentação?

FS – A Paleo, no seu geral, tem algumas orientações básicas simples e com suporte científico que, claro, tiveram o seu alicerce no conhecimento do que se julga que seja a melhor alimentação para o ser humano. Importa ter em atenção que, segundo esta ideia, e consoante a zona do planeta e as condições de cada povo, é uma alimentação que pode variar muito quanto aos nutrientes envolvidos.

Mas podemos resumir rapidamente em 4 ideias base:

-Restringir o açúcar (especialmente o refinado e adicionado);
-Evitar grãos (trigo e semelhantes com glúten, soja, milho…);
-Optar por aquilo a que chamamos de “comida de verdade” (evitar produtos industrializados);
-Perder o medo da gordura natural dos alimentos.

A partir daqui, destas orientações básicas, cada um deverá adaptar a si e às suas rotinas aquilo que mais lhe convém, sabendo que será necessário conhecer um pouco os alimentos e o seu efeito no metabolismo do corpo para fazer as melhores escolhas. Depende também dos objetivos de cada um: quer perder peso? Quer apenas uma alimentação mais saudável? Tem alguma condição clínica para a qual é recomendada uma alteração de hábitos alimentares?

CC – Contudo, e pelo que percebi, o estilo paleo não se foca essencialmente na alimentação. Que outro aspetos devemos ter em conta?

FS – É verdade. Por isso chamamos de estilo ou filosofia Paleo… porque pressupõe hábitos saudáveis e alguns bastante mais difíceis de implementar do que a alimentação, como por exemplo o dormir 8 horas por dia (confesso que falho sistematicamente neste aspeto). Pressupõe que a pessoa seja ativa, que se movimente ao ar livre e que apanhe sol com frequência. E, muito importante, que minimize o stress.

CC – Com a paleo aumenta-se a ingestão de gorduras, sobretudo naturais. E o colesterol? Não é preocupante o aumento do colesterol, visto que há a ideia de que o aumento de gordura e do colesterol estão intrinsecamente ligados?

FS – Eu próprio fui alvo desse enorme embuste! Sinto-me enganado e com vontade de reclamar as manteigas que não comi e os queijos que afastei. As pessoas acreditam na classe médica (que alternativa temos? dizem muitos, dizia eu…). A classe médica acredita no que estudou e nas orientações que recebe… mas o conhecimento evolui e sabe-se hoje que a teoria do colesterol foi profundamente mal formulada e que não está cientificamente fundamentada. No entanto a indústria que fabrica os medicamentos para “regular” o colesterol é muito poderosa… No grupo temos tópicos frequentes sobre esse assunto e links para estudos e posições científicas inabaláveis.

Deixa-me fazer uma ressalva que já devia ter feito: não sou médico nem possuo conhecimentos académicos para justificar aquilo em que acredito. O meu papel, o papel dos outros administradores é orientar as pessoas na busca da melhor informação, partilhar experiência prática e motivar para a mudança.

CC – Paleo e o “low carb” parecem estar de alguma forma ligados. Paleo tem de ser necessariamente “low carb”?

FS – Essa é outra questão que gera muita confusão. Naturalmente que a Paleo se assume como uma alimentação baixa em hidratos de carbono (“low-carb”) pois inevitavelmente, se seguirmos as recomendações Paleo, estaremos a baixar substancialmente o consumo deste nutriente face a uma alimentação “convencional”. No entanto isto é muitas vezes confundido com a “dieta low-carb” (normalmente “very low-carb”, quando comparada com o “low-carb” que a Paleo naturalmente propõe) que se constitui como uma estratégia específica para perda mais rápida de peso ou necessária devido a alguma questão de saúde e que deve ser implementada com rigor e, de preferência, com acompanhamento especializado.

Costumo dizer que a Paleo é uma alimentação GCHF – “good carbs, high fats”.

CC – É importante o desporto fazer parte deste estilo de vida. Se sim, que desportos são os mais aconselháveis?

FS – É muito importante sim. Não é tão importante no caso de uma dieta de perda de peso (como a low-carb), mas é fundamental na filosofia Paleo. Tão mais fundamental porque sabemos que temos vindo a adotar hábitos de sedentarismo. Agora, não é preciso ninguém virar atleta ou passar a viver no ginásio. A Paleo propõe uma vida ativa: isto equivaleria a andar bastante a pé durante o dia, a correr um pouco, a saltar e agachar, por vezes de forma vigorosa, etc… no fundo tal como faria o tal homem do paleolítico. Como isto se torna complicado, o recurso a ginásios com aulas de musculação e de treino aeróbio de alta intensidade (e curta duração), algumas vezes por semana, acaba por ser uma boa solução nos dias de hoje.

CC – Quais sentes que são as maiores dificuldades/preocupações de quem inicia?

FS – O que mais motiva a mudança é sem dúvida o peso. Depois, quem adota a Paleo, rapidamente percebe a lógica intrínseca e experimenta outros benefícios (que variam de pessoa para pessoa).

O que mais dificulta, inicialmente, é a ideia de que “não consigo largar o pãozinho” ou “não consigo gostar da gordura dos alimentos”… bom há sempre soluções! Há muitos modos de confecionar um pão com ingredientes considerados aceites na Paleo, e, de facto, mesmo as pessoas que tinham esta dificuldade, acabam por experimentar até maior gozo em conseguir mudar estes hábitos com facilidade. E não têm que o fazer de modo radical… estivemos anos e anos e a comer “mal”… tudo o que formos melhorando, mesmo que devagar, será um ganho!

Preocupações… são várias, porque acabas por contrariar o que é recomendado pela sabedoria convencional e pela classe médica (no geral… felizmente já há algumas exceções). As pessoas à tua volta vão estranhar, vão falar… mas também vão ficar surpreendidas com os resultados! E é assim que muitos mais se têm juntado a nós!

CC – No grupo “Paleo Descomplicado” com o que podemos contar?

FS – Podem contar com apoio e com orientação, segundo a nossa forma de encarar a filosofia Paleo. Podem contar com muitas, muitas receitas. A toda a hora são publicadas as mais variadas experiências. E é mesmo a toda a hora pois temos participantes portugueses e brasileiros que vivem por todo o mundo. Podem também encontrar muita fundamentação para o que fui referindo nas questões anteriores e as novidades que vão saindo nos meios de comunicação social e nos blogues e sites sobre saúde e nutrição. Podem encontrar um bom ambiente!

O grupo é fechado, mas qualquer um pode solicitar a entrada. Sendo um grupo numa rede social, não estamos livres de ter alguns atritos de vez em quando, pois há sempre pessoas que entram nestes grupos só por entrar ou que entram e têm algum objetivo específico, como fazer publicidade a algum serviço ou promover outros conceitos ou dieta…e nesses casos temos que agir de forma firme, para manter o espirito do grupo e o seu objetivo inalterados.

Podem também visitar o site de apoio onde tentamos reunir os conteúdos fundamentais e algumas das receitas para ficarem à disposição de todos.

Sobre a Carla Cerqueira:
Licenciada em Comunicação Social e apaixonada pela escrita. O interesse pela nutrição e pela alimentação saudável surgiu após uma reeducação alimentar, onde perdeu 17kgs. A paixão pela escrita aliada ao interesse pela alimentação fizeram nascer o blogue “Canela e Gengibre”. Lema de vida: “Para ver o arco-íris, é preciso não temer a chuva”.)

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